domingo, julho 10, 2005

E quando a saudade ataca, que se faz?

este texto foi escrito originalmente para o meu blog a 29-04-05 , mas não sei porquê, apaguei-o. aqui fica


Tive um pesadelo a noite anterior. Sonhei que estava na espécie de uma praia/parque de campismo tipo salgueiros, com um montão de gente à minha volta. De repente surge do nada uma escavadora, daquelas laranjinhas usadas nas obras. Esta lança a sua enorme “concha” ao mar e logo a seguir retira-a. Quando consegui ver o que estava dentro da concha da escavadora senti um aperto no coração. Ali estava ele, submerso em água salgada, um corpo pálido inanimado. Era o corpo do rapaz que morreu no temporal.

Para quem não conhece a história, o que se passou com este rapaz de 16 anos foi durante uma noite recheada de álcool, o rapaz foi com uns amigos para um bar ao pé do mar. Bêbados, o rapaz e um amigo decidiram tomar um banho naquele mar revolto. O amigo salvou-se. O rapaz não.

Nunca vi este rapaz na vida, mas apesar disso esta história abalou-me imenso pela sua brutalidade. Podia acontecer a alguém que eu conhecesse, a um amigo, a mim. E de pensar que o seu corpo ainda não foi encontrado…

Quando vi o corpo do rapaz fiquei com aquele aperto na garganta, com tonturas, e com aquela vontade de chorar e não conseguir. Aquela persistência em negar que aquilo não estava a acontecer, que aquilo não era o rapaz que tinha morrido, que era tudo uma brincadeira. Fiquei chocada. Ao início pelo horror das imagens, e a seguir quando tomei consciência de mim, pelo sentido de perda.

Sentia que conhecia aquele rapaz.

Quando algo muito mau acontece tenho a tendência para criar histórias na minha cabeça, fantasio na esperança de aumentar as probabilidades de ser tudo um mal entendido.

Confesso que ainda não acredito que o meu amigo morreu. Dentro da minha cabeça isso não aconteceu, é tudo uma brincadeira de mau gosto que ele nos decidiu pregar. Se calhar, ele estava farto da sua vida e foi viver para outro sítio. Quando estava no aeroporto de Lisboa quando vim da Madeira, que foi onde recebi a notícia de que o meu amigo tinha morrido, vi um homem por trás que era igual ao meu amigo: cabelo, tom de pele, ombros. Afastei-me transtornada, mas logo de seguida fui ao lugar onde estava esse homem e não o encontrei lá. Até hoje não me perdoo por o ter deixado ir.

Esta situação de criar situações acaba por ser um pouco frustrante, na medida em que sinto uma grande dor no peito e não consigo chorar. Quando recebemos a notícia estávamos num carro a ir para o hotel e a minha mãe largou-se a chorar. Eu limitei-me a reconfortá-la, atónita. Nem uma lágrima.

E não me apetece escrever mais, nem rever o texto. Temos pena.


Years will bring you maturity
At least is what they say
It will hurt you deeply
But it’s the price you’ve got to pay

1 Comments:

Blogger JPM said...

Também a mim senti tamanha aflição, quando soube da notícia...

Senti na minha loucura que tinha forças e resistência, que de alguma maneira devido aos anos da natação que tive podia fazer a diferença e regastar o corpo do rapaz, da sua asneira que podia ter sido eu ou outro qualquer a fazê-la...
Que do meu coração, da minha vontade e asneira podia ir contra a tempestade, versus natureza... como tantas vezes o fiz!

Custa-me saber que num lugar onde passei milhões de vezes na diversão, no prazer daquelas águas de mistério, alguém ficou para trás...

Num lugar que me era tão apetecível e, que tantas vezes tentava bater o medo de ir mais longe... alguém não sobreviveu...

Numa pequena "asneira"... parece que se perdeu tudo! E tantos, tal como eu, ignoravam a força deste mar...

Custa-me e, nem o conheço, penso na vida que ele deixou e o tanto que ainda podia dar a este mundo... penso nos pais que deixou e toda a sua família e amigos.

O quanto deverá estar a custar-lhes... pensar que ninguém conseguiu e, que tão perto estava ele de ser salvo!

Pensar também no medo, no horror de morrer afogado... num mundo submerso do qual não controlamos com os nossos pés bem assentes no chão...

Penso também... nos que já me deixaram e, no pesar de não puder ter tido a oportunidade de desfrutar mais tempo com eles... de não puder me divertir, ter grandes momentos e até de dizer o tanto que gostava deles...

De saber que perco parte dessas memórias, pelo tempo que já foi...

A tristeza de algum dia puder vir a esquecer as minhas já frágeis mémórias com eles...

Mas sei que sempre que neles me falarem... lembrarei com orgulho e felicidade, por tudo o que de bom que nos deram, a nós e a este mundo, e fizeram simbolizar!

11:49 a.m.  

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