este texto foi escrito originalmente para o meu blog a 29-04-05 , mas não sei porquê, apaguei-o. aqui fica
Tive um pesadelo a noite anterior. Sonhei que estava na espécie de uma praia/parque de campismo tipo salgueiros, com um montão de gente à minha volta. De repente surge do nada uma escavadora, daquelas laranjinhas usadas nas obras. Esta lança a sua enorme “concha” ao mar e logo a seguir retira-a. Quando consegui ver o que estava dentro da concha da escavadora senti um aperto no coração. Ali estava ele, submerso em água salgada, um corpo pálido inanimado. Era o corpo do rapaz que morreu no temporal.
Para quem não conhece a história, o que se passou com este rapaz de 16 anos foi durante uma noite recheada de álcool, o rapaz foi com uns amigos para um bar ao pé do mar. Bêbados, o rapaz e um amigo decidiram tomar um banho naquele mar revolto. O amigo salvou-se. O rapaz não.
Nunca vi este rapaz na vida, mas apesar disso esta história abalou-me imenso pela sua brutalidade. Podia acontecer a alguém que eu conhecesse, a um amigo, a mim. E de pensar que o seu corpo ainda não foi encontrado…
Quando vi o corpo do rapaz fiquei com aquele aperto na garganta, com tonturas, e com aquela vontade de chorar e não conseguir. Aquela persistência em negar que aquilo não estava a acontecer, que aquilo não era o rapaz que tinha morrido, que era tudo uma brincadeira. Fiquei chocada. Ao início pelo horror das imagens, e a seguir quando tomei consciência de mim, pelo sentido de perda.
Sentia que conhecia aquele rapaz.
Quando algo muito mau acontece tenho a tendência para criar histórias na minha cabeça, fantasio na esperança de aumentar as probabilidades de ser tudo um mal entendido.
Confesso que ainda não acredito que o meu amigo morreu. Dentro da minha cabeça isso não aconteceu, é tudo uma brincadeira de mau gosto que ele nos decidiu pregar. Se calhar, ele estava farto da sua vida e foi viver para outro sítio. Quando estava no aeroporto de Lisboa quando vim da Madeira, que foi onde recebi a notícia de que o meu amigo tinha morrido, vi um homem por trás que era igual ao meu amigo: cabelo, tom de pele, ombros. Afastei-me transtornada, mas logo de seguida fui ao lugar onde estava esse homem e não o encontrei lá. Até hoje não me perdoo por o ter deixado ir.
Esta situação de criar situações acaba por ser um pouco frustrante, na medida em que sinto uma grande dor no peito e não consigo chorar. Quando recebemos a notícia estávamos num carro a ir para o hotel e a minha mãe largou-se a chorar. Eu limitei-me a reconfortá-la, atónita. Nem uma lágrima.
E não me apetece escrever mais, nem rever o texto. Temos pena.
Years will bring you maturity
At least is what they say
It will hurt you deeply
But it’s the price you’ve got to pay